adriano antonio
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Textos

O sonho de um escritor

"Mas são exatamente esses dez por cento que farão a diferença, que o tornará uma pessoa feliz!"

Talvez João Colibri, com aqueles olhos azul-turquesa e a sagacidade irrefutável, estivesse certo em sua fala. – lembrou Zezinho, logo após a despedida.

Em um lugar afastado e simples, está localizada a pequena cidade de Lerville.

Um homem com idade de trinta anos nasceu próximo dali, na zona do sertão. Mudou-se para Lerville aos seis anos de idade, carregando consigo a alcunha de Zezinho.

José dos Rios Vieira teve uma infância bem cuidada pelos pais humildes. Sua mãe convenceu seu pai a abrir mão da lavoura de batata baroa e assim transferiram-se para a cidade com perspectivas de criarem o filho.

Zezinho era um menino tímido, estudioso e sonhador.

Desde pequeno, isolava-se no quarto com seus livros e cresceu sendo zombado de caxias. Não perdia aula e se destacava no colégio, tornando-se motivo de orgulho para sua família.

No ano de 2001, com quinze anos, o adolescente acanhado começou a trabalhar na prefeitura da cidade. Tinha medo de tudo o que via no extenso prédio da administração lervillense. Apesar da estranheza e do pouco conhecimento, toda vez que era solicitado, respondia em tom firme:

– Não sei, mas posso aprender.

E aprendia. Num dia qualquer, a tesoureira Marília o chamou para ir ao banco Úbere passar um Documento de Ordem de Crédito, perguntando-lhe se já havia feito tal serviço, e ele respondeu positivamente. Coitado! No entanto, Zezinho solicitou ajuda dentro da agência bancária e, ao retornar, recebeu o elogio:

– Que bom que você sabe! Assim não preciso mais ir ao banco, pois o funcionário anterior não sabia.

Desta forma, o menino aspirava em meio ao centro administrativo. E, à noite, durante os trabalhos escolares, pensava o que seria quando crescesse: escritor, psicólogo, economista, prefeito?

O ano de 2008 foi marcado por dois especiais acontecimentos na vida do rapaz de Lerville: o seu ingresso na faculdade para o curso de administração na cidade vizinha, e o seu primeiro contato com a poesia. Ao mostrar os seus primeiros escritos ao professor e escritor, João Matheus, este ficou muito espantado com a aptidão poética de Zezinho, incentivando-o a escrever em um site literário.

De repente, com vinte e dois, Zezinho transformara-se em Rios Vieira, nome literário conhecido na faculdade por escrever poesias e crônicas no Jornal Acadêmico. Antes de completar os vinte e três, foi premiado em dois concursos culturais, um de frase e o outro de poesia, ambos de nível nacional.

Em 2012, já casado, Zezinho prestou concurso público de uma autarquia federal e se tornou servidor público efetivo na capital Andarias, distante 400 quilômetros de Lerville.

Foi quando intensificou o seu contato com a escrita, escrevendo poemas, pois sobrava-lhe um tempo livre no trabalho para rascunhar suas inspirações.

Formou-se em 2013 e realizou uma pós-graduação em 2014, também dentro de administração, na área de economia e finanças, concluindo-a em 2015. No ano seguinte, era mestrando em literatura e linguística.

Mas qual era o verdadeiro sonho de Zezinho?

O sonho de José dos Rios Vieira era publicar um livro. Desde 2012, ao ingressar no serviço público, o poeta tinha recursos financeiros para tal finalidade, mas o jovem do interior desejava algo mais: ser reconhecido.

No começo de março de 2016, após diversas recusas, Rios Vieira recebeu o convite de uma renomada editora – que havia editado livros de escritores célebres – para, enfim, editar o seu primeiro livro. Zezinho Rios Vieira ficou extremamente feliz, anunciando por telefone a boa notícia à esposa e aos pais.

Um mês depois, o poeta foi a um congresso em uma cidade distante 28 quilômetros de Andarias, denominada Riacho Bértes, referência nacional em literatura. Lá, no Centro Cultural, pôde expor o conteúdo de seu livro a diversos escritores, leitores, curiosos e imprensa.

No retorno para casa, ainda em Riacho Bértes, por volta do meio-dia, encontrou no centro da cidade o ex-colega de época de prefeitura, João Colibri, que o cumprimentou, perguntando:

– José, quanto tempo! Você está de carro? Pode me dar uma carona?

Zezinho imediatamente respondeu:

– Olá, João! Posso sim, mas antes preciso passar na farmácia; depois pretendia almoçar, mas, de repente, deixo para almoçar em Andarias.

João decidiu acompanhá-lo afirmando que não havia nenhum problema, pois o seu ônibus estava disponível apenas às 13 horas e 30 minutos.

João Colibri, homem misterioso, taciturno, de aproximadamente 55 anos, havia sofrido de infarto recentemente, conhecia várias cidades do mundo e possuía um bar em Andarias.

Zezinho adentrou a farmácia, enquanto João o esperou na parte de fora. Ao sair, João lhe falou:

– Ao invés de almoçarmos em Andarias, vamos almoçar aqui em Bértes. Qual restaurante você prefere? Quer ir a um "chinês"?

– Não, João! Vamos ao restaurante central mesmo! – exclamou Zezinho.

– Não sei onde fica. – replicou Colibri.

No meio do caminho, João perguntou ao rapaz como estava a vida, e se permanecera no serviço público. E Zezinho respondia-lhe tudo, educadamente.

Entusiasmado e ansioso, Zezinho comentou com João que estava publicando o seu primeiro livro de poemas. João estranhou:

– Mas o que deu na sua cabeça de querer publicar um livro agora?

– Não esquenta não, João, para você vendo mais barato. O preço de capa dele nas livrarias e na internet será maior.

– Você deveria doar o livro para o amigo aqui!

Primeiramente, seu nome tem que ficar conhecido, se é que você pretende se tornar um escritor famoso e bem-sucedido. – ponderou João Colibri.

Conversaram durante o almoço outros assuntos, mas João voltou a explorar o assunto do livro, perguntando sobre qual estilo literário Rios Vieira traçava em sua obra, de como era o processo idealizador do seu poema, se havia filosofia, se falava de Deus – porque para João, o poeta não deveria falar de Deus –, afirmando que todo escritor deve falar de zona, traição, vingança, entre outros.

Ao saírem do restaurante, Zezinho ainda ouvia críticas de João a dois escritores de Andarias, mas preferiu ignora-las.

Durante o retorno, João fez três perguntas a Zezinho:

– Você está feliz profissionalmente?

– Sinceramente, João, uns noventa por cento. Ainda falta alguma coisa. Não é no serviço público, gosto do que faço, mas...

João o interrompeu:

– Mas são exatamente esses dez por cento que farão a diferença, que o tornará uma pessoa feliz! – E continuou:

– E pessoalmente? Emocionalmente, como está o seu psicoemocional?

Zezinho respondeu:

– Pessoalmente e emocionalmente, sim, estou feliz.

– José, você é uma pessoa – como posso lhe dizer – muito sensível, e diria até, boa. Entretanto, ainda tem medo de arriscar, de enfrentar as coisas. Pare com essa bobeira de "ser poeta", pois o poeta é um sofredor por natureza. Não é qualquer um que escreve poesia, porque esta arte brota do âmago, da profundeza de sua criação.

– Você me fez essas perguntas, João, por que teve um infarto? – excedeu Zezinho.

Aquele homem casmurro, então, se exasperou:

– Não tem nada a ver, são apenas curiosidades que...

Zezinho interrompeu-o, sentindo certa tensão:

– Sabe, João, desde a época que te conheço, considero-o vaidoso, frustrado e sofrível. Não conheço seus hábitos, quem sabe seja até solitário e notívago! Um alguém que não conseguiu se realizar e faz essas perguntas para descobrir as respostas que procura ou para comparar com as que têm!

João começou a rir demasiadamente e se defendeu dizendo que nunca foi solitário, e que, logicamente, era uma pessoa realizada por tudo o que fez, pelos filhos, netos. Afirmou, ainda, que Zezinho estava equivocado com questões de autorrealização, pois isso não existia, e ressaltou que a única satisfação somente será revelada na hora da morte, entre outras coisas que Zezinho não se lembrou por ser, quiçá, irrelevante.

Ao chegar ao ponto de desembarque, João perguntou a Zezinho:

– O que realmente importa na vida?

Zezinho respondeu:

– O tempo, os momentos.

E João refutou:

– Não! O importante na vida são as coisas valiosas que a compõe. Por isso, existe o pequeno, o médio e o grande: são estes que formam o todo, ou seja, não é o todo que faz a diferença, são as diferenças que fazem o todo.

E acrescentou:

– Guarde bem isso que lhe falei para você usar no seu livro, nos seus poemas.

E Zezinho aprendeu, na verdade, que alguns indivíduos são impositivos ou orgulhosos, tentando discretamente findar os sonhos alheios.

João agradeceu e, ao sair do carro, sorriu ironicamente:

– Passe qualquer hora lá no bar e leve o seu livro para eu dar uma olhada, Rios.

Respondeu-lhe Zezinho:

– Com certeza, Colibri, um forte abraço!

E continuou dirigindo para casa.

Em junho de 2016, o poeta Rios Vieira sentiu-se realizado ao receber o Prêmio Nacional da Academia de Letras pelo melhor livro de poesias, com a obra Diálogo Urbano, em discurso proferido por seu estimado professor João Matheus, na cidade de Riacho Bértes. Na noite de autógrafos, João Colibri adquiriu três exemplares, onde se lia em um dos livros autografados:

"Para João Colibri: dedico meus 10%. Rios Vieira."
Adriano Antonio
Enviado por Adriano Antonio em 26/09/2016
Alterado em 07/03/2017

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